OS NOSSOS LEGÍTIMOS REPRESENTANTES
Confesso que tenho uma relação esquisita com a democracia. De um lado, não admito nenhum outro tipo de regime. Sou um democrata radical. De outro lado olho para os políticos eleitos por nós empoleirados em Lisboa, ou esparramados nos prédios públicos do país, e sinto-me constrangido e mal representado. Eis o esquisito dessa relação: sou um cidadão e aquelas figuras públicas são os meus legítimos representantes. E, no entanto, nutro por eles, quase sempre, um sentimento que intercala desprezo e repúdio, raiva e indiferença, asco e desconfiança.
Vivemos longos anos sob os coturnos de uma ditadura. Naquela época, olhávamos para Lisboa, e tínhamos vontade de chorar. Mas tínhamos um alibi: a maioria daquelas figuras estava lá contra a nossa vontade. Às portas de novas eleições legislativas após a redemocratização, boa parte da sociedade portuguesa contínua com um gosto azedo na boca ao olhar para os políticos. Só que agora não temos mais consolo: fomos nós que os pusemos lá. Somos corresponsáveis pelas bandalheiras pela falta de caráter e de vergonha, pelas patetices e mesquinharias que eles, perpetram. Vários desses elementos, que na época da ditadura deplorávamos por nos terem sido impostos, agora estão lá porque nós votámos neles!
Todavia, a angústia de nunca ter em quem votar reforça em muitos de nós a ideia, de que a democracia é de facto o pior dos regimes – mesmo com a exceção de todos os outros.