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O ENTARDECER

O ENTARDECER

ONDE PÁRA O OPTIMISMO?

Para si, que está dentro do mundo empresarial, acha que os empre­sários estão mais optimistas, mais confiantes?

Não. Os empresários não estão a pensar no dia de amanhã, no próximo ano ou daqui a dez anos. Os problemas da economia portuguesa estão longe de estarem resolvidos. As pessoas estão em Portugal independentemente de conjunturalmente haver mais ou menos confiança. Continuam preocupadas porque há um conjunto de dificuldades que não estão resolvidas.

Esse é um problema denunciado pelo Compromisso Portugal do qual foi fundador. Este tipo de denúncias tem tido alguma resposta?

As pessoas têm intelectualmente adesão a algumas das sugestões, mas se as concretizam já é uma questão diferente. Têm boa vontade mas para isso é necessário uma grande tenacidade. Há um conjunto de pessoas que têm beneficiado das dificuldades. Mas percebe-se que as pessoas pelo menos aderem e partilham das nossas preocupações.

Se pudesse atribuir uma quota de culpa a empresários, trabalhadores e governos, quem é que acha que é o principal responsável pelo actual estado da economia portuguesa?

Todos têm a sua quota parte de responsabilidade. Têm culpa os empresários, que não se modernizaram, que descapitalizaram as empresas, que não assumem riscos e se posicionaram para receber apoios. Os traba­lhadores, ou os seus representantes, que ainda vivem como se vivessem no século XIX. Por outro lado, os vários governos que não resolveram problemas vários. A classe política e as coorporações que se apropriaram do Estado terão provavelmente uma quota parte superior. Refiro-me sobretudo aos que no Estado ou

entrevista liderança

grande plano

inv st _ Outubro de 2006 _ página 29

rao lado dele beneficiaram de toda esta opacidade. E aí também há alguns empresários ou mesmo as pessoas que não tiveram honestidade e estiveram “alapados” no Estado. Há aqui uma culpa muito partilhada, até por todos nós.

“Retoma pode estar a iniciar-se”

No executivo de Cavaco Silva foi en­comendado um estudo ao professor Michael Porter onde se apontava para o investimento no sector tradicional. Dez anos depois está tudo na mesma. O que é que falhou?

Penso que alguns dos aspectos, como o do vinho, têm tido algum desenvolvimento. No têxtil houve um pequeno número de empresas que fizeram o que estava mencio­nado no estudo, que era diferenciarem-se, criando marcas, utilizando a tecnologia na produção, subir na cadeia de valor. Essas, hoje em dia, progridem. Se olharmos para a cerâmica e para o vidro, e aí falamos da região Centro do País, continuamos a ter algumas boas empresas, mas não se deu o salto, muitas vezes por fragmentação, outras por má gestão, incompetência ou descapitalização. Esses eram sectores onde havia competências próprias suficiente­mente desenvolvidas, mas onde o problema teve muito a ver com a incapacidade dos empresários, muitas vezes por não fazerem parcerias, que pudessem competir num mercado cada vez mais aberto.

O que é que falta ao nosso sector em­presarial para se tornar competitivo?

Como não acredito em dirigismo, acho que é preciso ter duas capacidades bem desenvolvidas: a primeira é ser capaz de ser eficiente tirando partido dos recursos que se tem. Isto parece uma banalidade, mas a procura da eficiência exige um grande esforço. O segundo aspecto é a agilidade. Acho que é preciso ter agilidade mental para se saber que, no mundo de hoje, ancorar demasiado a actividade a um produto, a esta ou aquela região, pode ser o caminho para o suicídio. O mundo muda muito mais depressa, as condições mudam com muito mais rapidez e, portanto, as organizações têm de se tornar muito ágeis.

Defendeu, num artigo de opinião, que “o episódio dos 6,83% de défice foi apenas uma história mal contada e que o Banco de Portugal tinha voltado ao registo de seriedade e rigor habitual”. Constâncio fez um favor a José Sócrates?

O dr. Vítor Constâncio não é um homem de fazer favores, mas prejudicou a imagem do Banco de Portugal. Certa­mente bem intencionado, e mesmo continuando a ter boa impressão, as pessoas com quem contacto estão de acordo que ele fez um exercício muito pouco claro, que é o de prever o que vai acontecer daqui a alguns meses se determinadas coisas não forem feitas. Acho que ele é uma pessoa de grande qualidade, é um grande economista, mas todos nós temos maus momentos e ele provavelmente teve um momento menos bom. Favores não é o estilo dele, mas que deu algum jeito ao eng. José Sócrates, deu. O erro do Dr. Vítor Constâncio foi benéfico para o Governo. Talvez tenha convencido a opinião pública, mas não convenceu os economistas.

O Banco de Portugal já reviu em alta as previsões para a economia este ano e deixa em aberto uma segunda revisão. Partilha deste optimismo?

Precisamos de mais informação para estarmos tranqui­los, mas acho que há mais razões agora para estarmos optimistas.

Arrisca a palavra retoma?

Podemos estar a iniciar a retoma, a confirmarem-se as previsões.

Estamos numa fase de discussão da re­forma da Segurança Social. A proposta do Governo é a mais indicada para re­solver os problemas do sistema?

Acho que enquanto não tivermos no sistema obrigatório uma parte importante de capitalização não é possível garantir às pessoas uma reforma adequada.

O Governo acha que isso seria uma privatização do sistema...

É errado. Privatizar o sistema significaria que o Estado não estaria envolvido e o que se está a dizer é que nas contri­buições obrigatórias há uma parte que será capitalizada e essa parte até pode ser gerida por entidades públicas.

Acha inevitável que no futuro se receba menos de reforma do que se recebe até agora?

As pessoas devem preparar-se para no futuro receber menos reforma.

Ainda acredita na viabilidade do siste­ma de Segurança Social?

Neste momento aforro mais do que aforrava antes. Acho que isto responde.

Entre 1999 e 2000 foi secretário de Es­tado do Tesouro e Finanças. Voltaria a uma experiência governativa?

A minha passagem pelo governo foi equivoca para mim e para as pessoas que estavam comigo no Ministério. Pensei que tínhamos um mandato para introduzir algumas reformas e corrigir a situação da finanças públicas, mas não houve a cobertura política ao nível mais elevado do Governo. Pensei que podia contribuir para mudar as coisas e depois verifiquei que não era assim. Se não concordava com a política, quem estava a mais era eu.

Saíu por falta de apoio de Guterres ou do seu ministro?

O ministro estava muito mais consciente do que era pre­ciso fazer. O primeiro-ministro, que é uma pessoa muito inteligente, estava a tentar sair do seu próprio pântano, de onde acabou mesmo por sair pelo próprio pé.

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