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O ENTARDECER

O ENTARDECER

O LAGAR EM LABORAÇÃO CONTÍNUA

Na Quinta tudo era aproveitado no estrito rigor dos ensinamentos colhidos e melhorados durante várias gerações. O ciclo económico tem regras a cumprir. A abundância de água permitia manter através de rega, a alimentação de alguns animais, bem viçosa. Nas compridas “condutas de rega”, corria água muito límpida. No verão, menos que nas redondezas, o calor era imenso. Por vezes, sufocante. Depois do jantar as famílias desciam até à “beira -Tejo”. Sabia-lhes bem apanhar o fresco da noite, que vinha do rio. Os mais faladores ajudavam a passar a noite. Foi numa dessas noites que parece ter ocorrido um fenómeno que jamais eles esquecerão. Por cima das suas cabeças e a poucos metros de distância, passou uma grande bola de fogo. Essa bola tinha uma enorme cauda de luz intensa. Desviou para a esquerda e sobre a ribeira, desapareceu num imenso choupal que aí havia. No dia seguinte, andaram a procurar vestígios daquele imenso objecto luminoso e voador, mas sem qualquer êxito. Entretanto, o verão ia acabando e dando origem ao Outono com a sua azáfama das vindimas. De novo teríamos o ritual dos carros de bois a passar, todo o santo dia. Eram dias e dias com o mesmo ruído nos ouvidos. Na adega o labor era novamente intenso até à fermentação completa do mosto. Sem se dar por isso já estávamos no Outono. Para muita gente esta é a estação menos desejada. O sentido decrescente dos dias e de tudo, transmite-nos alguma sensação de menos alegria, ou mesmo mais alguma tristeza. É certo que esta estação tem muito de verão e muito de inverno. Pode haver muito calor ou pode haver já frio e chuva. De si própria tem o cair da folha, os dias mais pequenos, a chuva, o frio e de melhor tem o ritual da apanha da azeitona. Por esse motivo a Quinta era invadida por ranchos de homens e mulheres, vindos das Beiras para a apanha da azeitona. Era uma importante tarefa sazonal que punha de novo os carros a transportar toneladas de azeitonas para o lagar da Quinta. Era riqueza para o país. Era trabalho para aquela gente dos ranchos. O lagar laborava vários meses dia e noite. Estas migrações internas despertavam no Nuno bastante curiosidade. Com a chegada da primavera, tudo voltava ao princípio!