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O ENTARDECER

O ENTARDECER

MOURISCAS –

 

A VIDA NO INTERIOR

 

06.07.18 | João Manuel Maia Alves

Mouriscas é uma freguesia rural do concelho de Abrantes, com 1832 habitantes no recenseamento de 2011. Caracteriza-se por um povoamento disperso, com muitos lugares habitados espalhados por uma extensa área. Como todas as terras do interior, tem sofrido de despovoamento. É servida por caminho-de-ferro e pela autoestrada A23. Pouco se sabe da sua história.

Grande parte do território é coberta de oliveiras, algumas milenares, que, noutros tempos, justificavam a existência de muitos lagares. Muita da grande produção de azeite era  vendida para fora, por via-férrea ou rodoviária, ou comprada por pessoas que se deslocavam a Mouriscas.

Devido um microclima muito propício, Mouriscas teve noutros tempos uma grande produção de figo preto, que abastecia diversas destilarias.

A produção de seiras e capachos para lagares de azeite, iniciada no séc.XIX e vendida para todo o país, constituiu uma indústria que criou muitos postos de trabalho. As seiras e capachos eram produzidos manualmente em numerosas oficinas, que, a certa altura, se fundiram numa fábrica com processos mais modernos. Essa fábrica ainda existe com o nome de Sifameca, sem a pujança doutros tempos.

Outra indústria que floresceu em Mouriscas foi o do fabrico artesanal de telha e tijolo. A composição do solo numa zona de Mouriscas é  apropriada para o  fabrico de telhas e tijolos. Nessa zona houve vários locais de fabrico destes materiais. As telha e os tijolos produzidos em Mouriscas eram em grande parte vendidos para fora, tendo saído até de barco. Ainda hoje existe em Mouriscas uma firma dedicada ao fabrico artesanal de telha, tijolo e de tijoleiras para lares de fornos de cozer pão.

O fabrico de fogo-de-artifício foi uma atividade que tornou Mouriscas muito conhecida em variadas zonas do país, no tempo em que nenhuma festa ou romaria dispensava fogo-de-artifício. Os pirotécnicos de Mouriscas estiveram presentes, com caráter de regularidade, em festividades como a Queima das Fitas, em Coimbra, ou a Festa dos Tabuleiros, em Tomar. Também marcaram presença em grandes momentos, como a inauguração da ponte sobre o  Tejo.

No que respeita à educação Mouriscas tem uma história brilhante. Em várias épocas mourisquenses atingiram um alto nível intelectual e foram figuras muito importantes em várias áreas. Essa situação aconteceu ainda no  séc. XIX e acelerou-se nos anos 30 do séc. XIX quando rumaram a Mouriscas centenas de rapazes para preparação para os exames de admissão aos caminhos-de-ferro. Foi o professor do ensino primário Matias Lopes Raposo, natural de Mouriscas, que deu início a esses cursos, tendo a actividade atingido tais proporções que o Prof. Raposo, que também tinha a seu cargo o registo civil como bom republicano que era, se viu obrigado a dividir tarefas com a esposa, D. Maria Amélia Moreira, também docente do ensino primário, com a filha, Cremilde Moreira Raposo, e com o genro, João Gualberto Santana Maia, médico natural de Mouriscas, onde se tinha fixado e que, em Coimbra tinha estudado outras matérias além de medicina. À preparação para os exames do caminho de ferro juntou-se a preparação para o 3.º ano liceal e depois para o 6.º. O sucesso verificado nos exames divulgou-se e começaram a chegar a Mouriscas alunos de todo o País. Foi assim que na freguesia de Mouriscas nasceu, em 1938, o Colégio Infante de Sagres que, embora não legalizado, já tinha muitos alunos. Viria a ser legalizado em 1948, chegando a ministrar o 7.º ano do liceu. O colégio tornou-se mais tarde numa escola  pública, que foi extinta, numa altura em que já só era frequentada por alunos de Mouriscas e o país se encheu de escolas do ensino secundário públicas. As suas instalações foram ocupadas pela Escola Profissional de Desenvolvimento Regional  de Abrantes (EPDRA), que  funciona em Mouriscas nestas instalações e numa herdade a uma certa distância da EPDRA. É  frequentada por alunos de muitas localidades inclusive das ex-colónias.

A escola dos ferroviários permitiu a muito mourisquense um emprego nos caminhos de ferro, com acrescidas facilidades de ensino para os filhos. O colégio permitiu a muitos jovens o ensino secundário, que em muitos casos, continuou para um nível superior. Assim, Mouriscas, uma freguesia rural adquiriu um nível educacional muito elevado numa altura em que, no país a maioria, principalmente fora dos grandes centros, se ficava pelo ensino primário.