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O ENTARDECER

O ENTARDECER

AS ESPECIARIAS

 

 

Já o dissemos, mas tornamos a dizer: cidades infectas, as da Europa medieval. Esgotos não existem, os despejos são feitos diretamente para as ruas. Consequência: volta e meia as pestes dizimam as populações.

Alimentação? Os legumes são raros, a beterraba é desconhecida, ignorados o café e o cacau. Portanto peixe seco ou carne salgada durante todo o ano, monotonia do paladar. Apenas alguns senhores dos mais favorecidos é que se dão ao luxo de ter nas suas mesas ânforas de vinho e potes de mel.

Eis quando começam a chegar à Europa as especiarias do Oriente. Pimenta e cravo-da-índia para transformar o gosto da carne. Canela, noz-moscada, gengibre, benjoim e aloés para enriquecer o sabor dos reduzidos acepipes. Sândalo, resinas aromáticas para opor à pestilência das ruas. Navios começam a cabotar os portos do Mediterrâneo: ida e volta de Veneza e Génova para Constantinopla e Alexandria. Leste-oeste, singra o comércio de especiarias. 

Entretanto, hordas de Gengis Kã afugentam as tribos turcas para a Pérsia.  Estas conquistam e fixam-se no território. Alastram por todo o Próximo Oriente. Observam as caravanas de mercadores que atravessam os seus domínios. Invocam o Profeta Maomet que morrera seis séculos antes e desencadeiam guerra santa contra os cristãos, os infiéis. Consequências: tampão turco entre o Oriente e o Ocidente, rarefação de especiarias na Europa.           

No século XVI será feita a seguinte avaliação: um quintal de cravo-da-índia custa 2ducados nas Molucas, 14 ducados em Malaca, 50 ducados em Calecute e 213 ducados em Londres. Com este progressivo aumento de preços, conforme se vai marchando de leste para oeste, poderia haver melhor negócio do que abrir caminho alternativo para o comércio das especiarias?

Na proa da Europa, no rectangulozinho chamado Portugal, primeiro o Infante D. Henrique e mais tarde o seu sobrinho-neto D. João II aspiram cruzar a África em busca do Preste João. Ou, em alternativa, rumar para o sul para achar o fim do continente e depois subir ao longo da contracosta para descobrir o caminho marítimo para a Índia e para o Reino do Preste para depois, em conjunto, atacarem pela retaguarda o Turco anticristão. E, ao mesmo tempo, aproveitar para roubar a Génova e Veneza o comércio das especiarias. As guerras da cruzada, as garras da ganância...