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O ENTARDECER

O ENTARDECER

A Crise moral

 

As notícias sucedem-se dia a dia. É ministro que cai após acusações de corrupção na sua pasta. É deputado que acusa os colegas de venderem “favores”. É o prisioneiro que consegue regalias na prisão por meio de facilidades concedidas por algum carcereiro. É o estabelecimento comercial que consegue alvará por meio de meios ilegais etc.

A esta altura os cidadãos interrogam-se como pode um país desenvolver-se com base numa tão apregoada cultura das transgressões. Isso mesmo, a cultura das transgressões - expressão, que, no nosso entender, designa de forma clara o conjunto de ideias e atitudes que não respeitam a ética, pondo o interesse pessoal acima do interesse colectivo e das leis.

Se quisermos mudar essa cultura, precisamos todos de entender que o único caminho para lá chegarmos, num país desenvolvido económica e socialmente, é o do respeito perante as leis, não corrompendo nem sendo corrompido, pagando impostos e combatendo a podridão, a falsificação e a ilegalidade. Para começar, precisamos exigir dos nossos governantes que decidam sempre dentro dos padrões éticos. E por que não dizer? Dos mais elevados padrões éticos. Afinal, a corrupção instalada na base duma sociedade é mais fácil de ser combatida do que a corrupção que permeia nas esferas elevadas de poder.

Já passámos por momentos históricos em que parecia que o povo ia perceber o prejuízo generalizado que a corrupção acarreta. Chegámos até a aprovar a prisão de um presidente da República, numa onda de civismo que parecia levar-nos a uma nova nação, de cidadãos conscientes e éticos. Mas, tudo tem sido sol de pouca dura, porque afinal tudo continua na mesma, ou pior.

Alguns historiadores podem tentar distinguir e aconselhar o bem, o medo e o respeito pela lei. Só uma sociedade que tenha respeito às suas leis pode alcançar um patamar destacado de desenvolvimento. Enquanto a lei só for cumprida por medo, sem que os valores que a nortearam sejam compreendidos pela população, não conseguiremos modificar uma cultura de conivência com as transgressões respectivas.

Estudos e pesquisas mostram que os mais tolerantes recorrem ao argumento de que não adianta pagar impostos se as autoridades responsáveis acabam por não lhes dar o destino previsto, acabando por desviá-los. Ou seja, se não há confiança em que os recursos serão aplicados para o bem geral - na saúde, na educação, nas infra-estruturas, na habitação etc., para quê ser um cidadão ético? Cativações de conveniência, de nada servem!

Sempre insistimos em que uma coisa não depende da outra. Se formos esperar o modelo ideal de governante, não construiremos nada. Temos de pagar os impostos previstos na lei e exigir que eles sejam aplicados onde devem. E é isso o que deveríamos estar fazendo agora: exigindo que os governantes se empenhem no seu dever maior como cidadãos e dêem o exemplo de boas condutas a toda a população.

Há tempos que se diz que a crise não é económica. É social, não há dúvida nenhuma. Mas, mais do que tudo, isto é uma crise moral. Chegámos a um ponto em que alguns empresários comentam que as regras do jogo são essas mesmo e que sem "pagamentos ocultos" a quem concede licenças e autorizações nada se consegue. Na medida em que a iniciativa privada acaba por se comprometer com as autoridades de várias instâncias, fica difícil desatar o nó da corrupção.

O exposto aplica, se a negociações entre poderosos e entre pequenos. Por todo o lado,grandes conglomerados de empresas acabam se enredando em ligações perigosas com quem tem o poder de autorizar obras e empreendimentos, de conceder licenças ou autorizações. Da mesma forma, e seguindo o mesmo caminho, o tudo se faz entre um fiscal municipal e um pobre cidadão. Não é de hoje que, nas ruas do centro de grandes cidades, um veículo de fiscalização passa devagar, anunciando-se ostensivamente para que os prevaricantes tenham tempo de recolher a sua mercadoria irregular. É o fiscal fingindo que fiscaliza.

A corrupção não deve ser tolerada em nenhum nível. Se ela chega a dimensões tão grandes, é impossível calar um País! É impossível aceitar esse fingir que as leis são cumpridas, e que tudo isso envenena as entranhas da sociedade e provoca, lentamente, a destruição. de uma moral saudável na sociedade.

A esperança de mudar esta cultura, vem com a estabilidade da economia, e o respeito pelas regras democráticas

Estamos no momento histórico de construir uma sociedade em que o caminho seja de combate à corrupção.

É o momento perfeito para pensarmos colectivamente em como construir uma sociedade da qual todos nos possamos orgulhar.