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O ENTARDECER

O ENTARDECER

O NEOLIBERALISMO SOCIALISTA

 

Já conhecíamos a austeridade de esquerda, a qual consiste, em matéria fiscal, em substituir o aumento dos impostos directos pela subida dos impostos indirectos. Conhecemos agora o neoliberalismo socialista, o qual consiste em ter os mesmos objectivos macroeconómicos da direita, mas com o apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista.

Com uma grande dose de ignorância, todo o processo de ajustamento aplicado durante a governação centro-direita foi apelidado de neoliberal. Aumento de impostos, cortes nas prestações sociais e nos vencimentos da função pública, redução do défice, toda e qualquer medida negociada com a troika era associada a neoliberalismo. O dito tornou-se sinónimo de políticas de direita ou mesmo de extrema-direita. Acontece que a realidade é mais forte do que a demagogia. O processo de ajustamento, independentemente dos erros cometidos, não era uma questão ideológica, mas de sobrevivência. O país não tinha dinheiro para pagar as suas dívidas e contra isso não há ideologia que nos salve. Nem de direita nem de esquerda. Não há “ismo” que, por milagre, encontre dinheiro onde ele não existe.

Nesse sentido, a redução do défice orçamental, é mesmo uma questão de sobrevivência. Esse esforço foi o cerne de toda a campanha de esquerda contra o governo de Passos Coelho. Ainda nos lembramos das críticas feitas pela esquerda ao Plano de Estabilidade 2015-2019 apresentado pelo governo de Passos. “Neoliberal” foi a acusação genericamente mais ouvida. Temos agora o Plano de Estabilidade 2016-2020 arquitectado pelo governo socialista. E o que vemos lá? Quase o mesmo do anterior. Em alguns aspectos até mais ambicioso em matéria de redução do défice. Em 2020, António Costa e Mário Centeno prevêem mesmo um excedente nas contas públicas. O que é um excelente objectivo, independentemente de saber se as políticas propostas o irão conseguir ou não. Mas, em termos ideológicos, não é isto, na óptica de todos aqueles que atacavam Passos Coelho, uma rendição à fé neoliberal? À ditadura orçamental de Bruxelas?

A rendição de António Costa à realidade, interna e externa, é normal. Ele é um político hábil, capaz de dizer hoje uma coisa e outra amanhã, parecendo que diz o mesmo. Mas por onde andam as bandeiras anti-liberalismo do Bloco de Esquerda e do partido Comunista?

Será que também se renderam à realidade, seja ela neoliberal ou outra coisa qualquer? A um orçamento com défice zero, como quer Bruxelas? A um crescimento mais ou menos em linha com o previsto pelo governo de direita há cerca de um ano?

O “tempo novo” anunciado por PS, Bloco e PC será apenas uma nova forma de embrulhar velhas políticas orçamentais? Chamem-lhe o que quiserem, mas assim é.  

ANDAR AOS PAPÉIS

 

Novas eleições legislativas em Fevereiro 2005

 

Presidente da República demite Santana Lopes, depois de, praticamente, não ter começado a governar (três meses de verão) – de meados de Julho a Outubro quando começou a constar que o iria fazer. Era pública a pressão do PS sobre o Presidente da República!

 

O Presidente da República anunciou, no dia 30 de Novembro, a sua intenção de dissolver a Assembleia da República. Jorge Sampaio decidiu dar uma oportunidade à maioria PSD/CDS para continuar a governar após a demissão de Durão Barroso, mas ter-se-á cansado da instabilidade política e dos sucessivos escândalos que marcaram os 4 meses do Governo de Pedro Santana Lopes. Na decisão do Presidente terá também pesado o distanciamento face ao Governo de economistas e empresários de referência, como Ferraz da Costa, Belmiro de Azevedo, João Salgueiro e Cavaco Silva, entre outros.

Depois de muitas hesitações que o levaram a ouvir um leque muito alargado de personalidades da vida política e empresarial portuguesa, o XVI Governo Constitucional recebeu a concordância de Jorge Sampaio, na condição de prosseguir a política do Governo presidido por Durão Barroso e assegurar a estabilidade governativa. Contudo, a instabilidade política começou logo no dia da tomada de posse do Governo, com a mudança de pasta de Teresa Caeiro para a Secretaria de Estado das Artes do Espetáculo, poucas horas depois de ter sido anunciada pelo ministro da tutela Paulo Portas na pasta da Defesa. As dificuldades do primeiro-ministro na leitura do discurso de posse motivaram também críticas da Oposição, tendo o então candidato a secretário-geral do Partido Socialista acusado  mesmo Santana Lopes de "andar aos papéis".

 

DAVID LOPES