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O ENTARDECER

O ENTARDECER

" Tragédia Indescritível"

 

 

A noite do próximo passado 25 de Novembro ficou marcada na história do nosso Patriarcado a letras de sangue. Quem não se encontrasse realmente ou ao menos por acaso na zona do verdadeiro dilúvio, dificilmente se dará conta do que aquilo foi; os que vivemos aquelas horas amaríssimas ficaram habilitados a perceber algo da velhíssima página bíblica do tempo do patriarca Noé: chuva torrencial e demorada, vento invulgar e estranho, ruídos esquisitos de que não se podia verificar a procedência. Daí a pouco, os pequenos cursos de água, como o JAMOR, de junto do qual escrevemos, em pouco mais de uma hora, subindo a alturas impensáveis e tudo tragando à passagem com um barulho infernal; corpos passando nas águas lamacentas, carros e árvores, etc., gritos de dor humana, característicos clamores dos pobres animais, tudo enfim formava um autêntico pandemónio em meio de densas trevas.

Nesta zona, para cúmulo, e como a não deixar despedir-se sem mais aquelas a escuridão da terrífica noite, há um enorme estampido - era um paiol que rebentava, tudo rebentando num raio de vários quilómetros.

 

O forte do Carrascal explodiu

 

E foi o segundo acto da tragédia que, se não imolou vidas humanas, a poucas terá deixado sem graves prejuízos.

Para completar o pânico que se apodera de muita gente que, durante dois inesquecíveis dias, caminha pelas estradas e caminhos sem rumo certo. Não terá sido possível alertar inteligentemente as populações que se sabia correrem risco? Não sabemos, mas o que afirmamos é que tudo isto foi trágico!”              

 

No dia seguinte de manhã era a desolação total. O autor destas linhas foi testemunha do pavoroso rescaldo na margem direita do JAMOR, da Rocha ao Estádio Nacional, onde as águas ainda quase tapavam as enormes árvores daquela área desportiva!

Por ali jaziam meio enterrados na lama, seis cadáveres e muitos animais trazidos pelas fortes enxurradas. A Gruta da Rocha ficou quase toda enterrada na lama e no Santuário os vidros estavam todos partidos. Altares e imagens destruídos, as paredes e tetos do Santuário com enormes rachas por onde escorria água no dia seguinte. Umas dezasseis barracas da modesta gente da Rocha, foram levadas pelas fortes e largas torrentes do JAMOR.

O forte do Carrascal, onde tantas vezes, durante a noite, o autor comandou a sua guarda em tempos de serviço militar obrigatório, viu os seus paióis enterrados no chão, serem infiltrados pelas águas da chuva originando uma explosão em cadeia.

Com estragos tão avultados a que urgia pôr cobro, como poderia nos tempos mais próximos alguém pensar nas próximas festas de 1968, até aí primeiro objectivo da Irmandade.

Tudo se alterou e as vontades viraram-se por inteiro para tão grandes, como urgentes, trabalhos de recuperação dos enormes estragos. Em primeiro lugar acudindo aos desalojados que na Rocha eram cerca de vinte famílias sem abrigo. As portas do velhinho Santuário abriram-se então para albergar tanta gente de mãos vazias, os seus filhos e os parcos haveres não engolidos pelas águas em fúria.

Só depois a Irmandade pensou na recuperação dos estragos no Santuário e áreas circundantes tão duramente atingidas.

Foram tempos de duras canseiras, de muito bater a portas amigas, de empresas da região e autoridades locais, para aos poucos e poucos se conseguir reaver e reconstruir o muito que se tinha perdido.

Só assim foi possível, em Fevereiro de 1968, inaugurar dezassete casinhas em «LUSALITE» e nelas alojar outras tantas famílias que ainda dormiam no Santuário.

Face a tanto sofrimento e canseiras de ordem social, a Irmandade ponderou, e com toda a justeza, fazer chegar ao conhecimento público, não ser possível levar a efeito nesse ano de 1968, a tradicional romagem de fim de Maio, no Santuário da Rocha.

A actividade da Irmandade foi crescendo de ritmo e podia-se ler em cuidado opúsculo tornado público para anúncio das festas de 1969, a seguinte nota de abertura:

" Para quem queira sinceramente descerrar as pálpebras não é possível deixar de verificar a grande transformação porque tem passado a nossa Rocha nos últimos dois anos: o jardim passou de MONTUREIRA a ambiente verde, limpo, sadio e a luz felizmente chegou; o venerando templo acusa o sacrificado dispêndio de largas dezenas de contos de réis, que ao menos susterá a impressionante por que acelerada marcha que vinha fazendo para a ruína, conquanto ainda esteja longe de alcançar o pleno restauro; o ambiente pobre e abandonado das míseras habitações que por lá ainda restam infelizmente, pode ser algo atenuado com a apressada e provisória solução das «LUSALITES» que a nossa Irmandade fomentou com alguns auxílios oficiais e particulares.

Era pois, chegada a hora de as nossas bem antigas Festividades se restaurarem, dever máximo e grave que à mesma Irmandade incumbe, desde a primeira hora da sua existência, (19/09/1883) segundo os seus Estatutos".

(….) Não esperamos nenhuma outra recompensa terrena, senão que todos que até nós vierem se há-de admirar e comprazer. Todos à uma deveremos, convicta e euforicamente, assim o cremos, exclamar: - Temos finalmente, e com toda a verdade, umas Festas! É o que mais cordialmente possível a todos deseja, “A Irmandade".

 

Que ninguém pense que se descuidou o lado social dos festejos; voltaram os arraiais, os foguetes e o folclore, os concertos musicais e mesmo as típicas CAVALHADAS portuguesas.

Os arranjos do templo, tal como fora dele, continuaram até chegarem os anos setenta. A Irmandade lá vai fazendo as tradicionais festas da Rocha e cuidando do seu Santuário, arranjando o cata-vento da torre, limpando as cantarias e a gruta, caiando e rebocando as frontarias, pintando portas e janelas etc.

A verdade é que as obras se tornam cada dia mais caras e os proventos das festas vão dando cada vez menos para as necessárias benfeitorias.

Decorridos que começam a estar os cento e cinquenta anos do Aparecimento da Imagem da Santa valerá a pena analisar um balanço dos últimos anos, não com os nossos olhos mas com os olhos do próprio Padre capelão do Santuário:

 

" É patente aos olhos de todos que de há alguns anos a esta parte a região em que vivemos tem passado, nalguns aspectos pelo menos, por uma certa transformação; e como a freguesia o nosso querido Santuário que lhe está no centro, no coração, a bem dizer. Já não é uma velha zona abandonada; já não são antigas construções e esquecidos os seus templos.

Pensamos neste momento no nosso Santuário: enquanto viveu o rev. Capelão José G. Ferreira, esteve ele zelado e bem cuidado. Com a sua morte, podemos dizê-lo, mais uma crise se abre na vida do Santuário e em bem pouco tempo terá contribuído para a sua atenuação a presença nas suas dependências duma colónia de férias de Lisboa, cujas crianças beneficiadas, dada a sua proveniência do sobejamente conhecido então bairro da CURRALEIRA, eram das que não poupam nem pessoas nem coisas. Isto além de outras ocorrências vistas neste período em referência. Em 1966 estava o Santuário profundamente afectado, digamos, no seu corpo e na sua alma!" (….. )