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O ENTARDECER

O ENTARDECER

REGRA NÃO ESCRITA

Boa noite,
 
Há em Portugal uma espécie de regra não escrita do jornalismo de sentido único de acordo com a qual basta meia dúzia de manifestantes juntarem-se nas imediações de qualquer acto oficial para se lhes dar a mesma, porventura até mais cobertura do que ao evento que está a decorrer. Os sindicalistas, em especial os sindicalistas da CGTP, sabem que assim é e, apesar de muitas vezes serem os mesmos e só terem levado as suas faixas de um “protesto” para outro, já sabem que têm garantida uma generosa cobertura mediática.
Ontem, na Guarda, durante as cerimónias do 10 de Junho, era isso que estava de novo a acontecer até que o Presidente da República se sentiu mal e teve de ser socorrido no local. Os manifestantes, onde avultava a figura de Mário Nogueira, ignoraram o facto e continuaram aos gritos, só se calando depois de o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, general Pina Monteiro, ter subido à tribuna para pedir “respeito por Portugal e pelas Forças Armadas”, como aqui relatámos. E amainaram porque, nessa altura, a população presente fez sentir aos manifestantes que já tinham ido além do tolerável. Mesmo assim, ao olhar hoje para as bancas de jornais, vemos que houve quem entendesse que se justificava chamar à primeira página a existência dos protestos, apenas porque existiram.
Outros tiveram, contudo, uma atitude bem diferente. Foi o caso de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias:
“Quando discursava, Cavaco Silva desmaiou. Perante um homem que desmaia, um homem que lhe berra cala-se. Nogueira continuou a berrar. E a dúvida que se lhe pode pôr na política - ele presta-se à direita ou à esquerda? - Fica desfeita na vida geral: simplesmente ele é sem préstimo.”
Mas o comportamento dos manifestantes na Guarda não destoou, para o bem e para o mal, do comportamento de muitos cidadãos que, nas redes sociais, entenderam ser aquele momento adequado para umas piadolas . Helena Matos refere-se ao fenómeno, e uma piadinha em particular, neste post do Blasfémias:
“Num país distante, uma minoria que se considerava moralmente superior lidava mal com o princípio de “um homem um voto”. Nesse país, um homem que a minoria detestava ganhou várias eleições e tornou-se Presidente da República. Um dia esse homem enquanto Presidente sentiu-se mal enquanto discursava na cerimónia do dia do seu país. No Facebook alguém escreve  «nem o tipo morre nem a gente almoça». O tipo não morreu. E mais ou menos uma hora depois o tipo estava a colocar uma medalha no peito do pai da autora daquele comentário.”
É caso para dizer que os atos ficam com quem os pratica, e o relevante, no dia de ontem, foi o apelo, mais um, do Presidente da República a um acordo entre os principais partidos, acordo que se deveria concretizar até à apresentação do próximo Orçamento do Estado.
No Observador,  David Dinis sublinhou de imediato que “o acordo que [o PR] agora recuperou não é pedir demais: é o mínimo”. Mais: “este Presidente já não pode perder um minuto deste seu último mandato que não seja nesta batalha por um acordo partidário de médio prazo”. Só que, acrescentou, já se sabia o que ia acontecer:
“Nos próximos dias meio Portugal dirá que não faz sentido, que sabemos todos que não é possível, que o PS está no meio de uma guerra, que o Governo está noutra”. 
Foi exactamente o que aconteceu. Mesmo assim notou-se em algumas análises, uma indisfarçável inquietação pelo rumo que a discórdia política está a tomar.
No Diário Económico António Costa notou “que ainda não é claro se os líderes políticos já aprenderam a viver no euro ou se os últimos três anos foram, para eles e para a generalidade dos cidadãos, um 'mal necessário' para um desejado regresso ao passado”. Isso explicaria aquilo que viu como um “ultimato” de Cavaco, prevendo que este possa ainda utilizar a única arma que lhe resta: antecipar o calendário eleitoral.
Já no rival Jornal de Negócios,  Helena Garrido (texto só para assinantes) foi um pouco mais longe e falou de “ameaça de crise de regime”. E explicou:
“Quando o Presidente recomenda que se escolha como "tempo de diálogo" o tempo que vamos ter até à apresentação do Orçamento do Estado para 2015, quem conhece os riscos que enfrentamos sabe que tem razão. PS, PSD e CDS têm poucos meses para recuperar a confiança dos portugueses. E é urgente que o façam, se querem ter nas eleições do próximo ano os votos necessários e suficientes para garantirem o poder de uma revisão constitucional.”
Não temos, de facto, nem muito tempo nem muitas alternativas. Basta consultar o Boletim Económico de verão do Banco de Portugal, que foi hoje divulgado. Mais do que os pequenos ajustes a que procedeu às suas previsões de crescimento económico, sem muito significado, contam os seus alertas: ou seja, o “crescimento da economia portuguesa continuará a ser condicionado por alguns constrangimentos estruturais”, pelo que é fundamental “assegurar um nível de consumo compatível com o rendimento”. Exige-se, também, “uma visão de longo prazo que garanta a consistência intertemporal das políticas e entre políticas, bem como “um enquadramento institucional estável”.
Até porque “o ajustamento das contas públicas está longe de estar concluído” e, só até 2019, ainda vamos necessitar de medidas equivalentes a 4% do produto interno bruto, ou seja, sensivelmente 6,7 mil milhões de euros. Isto contas feitas ainda antes da recente decisão do Tribunal Constitucional.
 
Outros tiveram, contudo, uma atitude bem diferente. Foi o caso de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias:
“Quando discursava, Cavaco Silva desmaiou. Perante um homem que desmaia, um homem que lhe berra cala-se. Nogueira continuou a berrar. E a dúvida que se lhe pode pôr na política - ele presta-se à direita ou à esquerda? - Fica desfeita na vida geral: simplesmente ele é sem préstimo.”

Boa noite,
José Manuel Fernandes