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O ENTARDECER

O ENTARDECER

POR QUE TRABALHAMOS?

 

Que comentários fazer sobre a ética puritana do trabalho, que mais parece ser um valor essencial da nossa cultura atual? O trabalho pode não ser parte necessária da nossa vida? Sim pode, mas este conceito ético é relativamente novo. Tal ética parece ter sido herdada do calvinismo, uma expressão muito rigorosa do protestantismo, do começo do século XVI. Anteriormente, o homem sobrevivera milhares de anos sem tal necessidade! Ignorou por completo as virtudes do trabalho e a sua atual ética.

Na Bíblia, o trabalho, é mesmo considerado uma maldição, não uma bênção (Génesis, 3:I9): “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.”
No século XXI, Calvino criou o trabalho ético. Pelas suas palavras o trabalho é uma coisa boa e divina, que mantem o corpo são e forte, curando até as doenças originadas pela ociosidade. Nas voltas desta vida, o “trabalhador é quem mais se assemelha a Deus.” Mesmo a tão falada “vocação”, não é algo que tenha nascido com as pessoas. É um sentir de cada indivíduo, deliberadamente escolhido para ser perseguido por razões religiosas. O Calvinismo defende a predestinação da vocação e exalta o trabalho como uma virtude santificada e obstinada nos negócios. A Igreja Protestante era uma poderosa aliada dos homens de negócios que precisavam de trabalhadores dóceis e submissos. A doutrina da predestinação glorificava o êxito nos negócios e tais empresários como homens predestinados diziam: “ Como eu estou predestinado para ser salvo, seja o que for que eu faça é bom aos olhos de Deus”.

Em Portugal nos séculos XII e XIII, a situação não era diferente. José Mattoso, põe em destaque o modo como a nobreza afirma os seus valores por oposição aos dos "vilões", onde se incluem os mesteirais, (homem de mester, cuja profissão é manual), tudo neles repugna. Um ponto comum se encontra pelas mais diversas localidades do país: uma desconfiança mal disfarçada para com os mesteirais; esta situação era apenas "atenuada nos casos do ferreiro e do ferrador, cujo trabalho era tão importante para as atividades militares". Concluiu este autor:

"Dir-se-ia que os trabalhos artesanais eram praticados por indivíduos cujos interesses não eram assumidos pela comunidade ou os seus dirigentes, por gente de condição inferior, quem sabe mesmo se por escravos mouros, como se sugere anteriormente. Tanto quanto se pode deduzir dos foros, escapava a esta desconfiança geral o ferreiro, que, como em muitas comunidades primitivas, devia ser um pouco feiticeiro. O trabalho que fazia com o fogo impunha-o ao respeito de toda a comunidade". A criação da chamada ética do trabalho no século XVI, teve o efeito de vir a separar a vida económica da vida religiosa. A ética do trabalho viria a ser necessária à consolidação da Revolução Industrial e sua expansão pelo mundo inteiro. “Progresso” e Religião” caminhavam, assim, de mãos dadas. Não só isso, ajudou igualmente os trabalhadores: “A segurança reconfortante de que a distribuição desigual dos bens deste mundo era uma dádiva especial da Divina Providência… O próprio Calvino formulara a tão citada declaração de que só quando as pessoas, isto é, a massa de trabalhadores e artesãos, eram pobres, elas permaneciam obedientes a Deus”. Para o homem primitivo e o homem das primeiras civilizações, o trabalho como tal não era uma virtude. Em vez de trabalho árduo, o homem trabalhava o menos possível e aceitava um padrão de vida limitado.

“O desenvolvimento brota da pobreza, não da abundância, como tantas teorias económicas nos induziram a crer. A pobreza estimula a busca de fontes adicionais de rendimento e dispõe as pessoas a fazer coisas que talvez evitassem antes”    

    

  

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