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O ENTARDECER

O ENTARDECER

O SÍTIO DA ROCHA

 

 

No dia 28 de Maio de 1822, andavam sete rapazes a tomar banho no JAMOR. No meio da gritaria e da brincadeira, avistaram um melro e quiseram apanhá-lo. A ave, porém, fugiu-lhes e, entretanto, passou por eles um coelho que assustado correu a enfiar-se numa toca. Os miúdos alargaram a entrada da dita e enfiaram lá para dentro, em perseguição do coelho, uma cadela que pertencia ao tio de um deles, um conhecido caçador chamado Manuel Plácido, morador no próximo lugar de Linda - a - Pastora, a quem contaram o sucedido.

 

Nesta altura, tocou o sino para a missa e, à pressa, taparam com pedras a entrada, deixando fechados o coelho FUJÃO e a cadela perseguidora.

Assim que a missa terminou, voltaram à toca com uma luz. Um dos gaiatos, o mais pequeno, conseguiu entrar, e ao ver que se tratava de uma gruta, grande, chamou os outros. Uma vez entrados todos, viram no chão uma laje e quando conseguiram erguê-la, a muito custo, descobriram duas caveiras, ossos humanos, pedaços de loiça, entre os quais os de um pote, pedras lisas e roliças, certamente machados e PERCUTORES neolíticos, ou uma e outra coisa, indícios de depósito mortuário do culto dos mortos na Idade da Pedra polida.
Os rapazes apanharam o coelho que perseguiam e um deles, chamado Nicolau, levou-o para casa. Dias depois decidiu oferecê-lo a el-rei D. João VI, juntamente com uma das pedras lisas que encontrara.
Como tinham noticiado na povoação o achado das ossadas
na gruta, a "casa", como lhe chamaram, o juiz de fora de Oeiras mandou pôr guardas à sua entrada, dia e noite. Muita gente acudiu a ver e foi nessa altura que alguém também encontrou, num cantinho escuro da gruta, uma imagem da Virgem, com um manto de seda muito velhinho, "cor de obreira desmaiada".

De quem seriam aquelas ossadas, foi a interrogação que a todos assaltou.

Há quanto tempo ali estariam?

A novidade corre depressa, mas as respostas para as dúvidas levantadas, ninguém as tinha. Está deste modo criado um clima de mistério e exaltação em torno do estranho achado!

É o próprio Pie Francisco da Silva Figueira que nos seus "Primeiros Trabalhos Literários", avança uma hipótese: " Quem seria que para ali fugira do bulício e enganos do mundo?"

Os restos mortais tudo parecem indicar tratar-se de alguém que à Virgem se teria dedicado com extrema devoção. Talvez algum monge ou algum penitente que ali viera acabar os seus dias em forma de expiação, purificando desse modo algum passado menos puro, com uma santa devoção.

 Puseram então a imagem na Igreja de Carnaxide, mas, como a maior parte das imagens das lendas, também a senhora da Rocha é "fugitiva", isto é, quando posta num local que não é o da Aparição volta a casa: Assim, no dia 1 de Junho, deram por falta da estatueta e logo se suspeitou de roubo sacrílego. Avisada a Justiça, entretanto, tratou-se de devassar o crime.

Poucos dias depois, dois lavradores de Linda - a - Velha dirigiam-se com uns bois a Carnaxide, ao ferrador. Um dos animais, a certa altura do trajecto, encostou-se a uma oliveira e parou a descansar. Um deles, que tentava espicaçá-lo para tornar ao caminho, olhou para cima inadvertidamente e viu a imagem da Virgem desaparecida. Correram a chamar o juiz de Carnaxide, que, depois de confirmar no próprio local a veracidade da notícia, foi prevenir Quintino Franco, o juiz de fora de Oeiras.
Enquanto isto se passava, um dos lavradores pegou na Virgem, que estava num buraco da árvore, e beijou-a. Como não conseguiu voltar a pô-la no mesmo local, correu a comprar uma fita e alfinetes, com que a prendeu na árvore. Começava a juntar-se gente e uma mulher de nome ISADORA, pôs uma lanterna de azeite aos pés da santinha.
É
então que o povo, em clima de grande agitação, começa a chamar àquela Imagem, de Nossa Senhora da Conceição da Rocha.

Quando o magistrado de Carnaxide regressou de Oeiras trazia ordem do juiz de fora para levar a imagem para a gruta onde fora primeiramente achada.

Formou-se então uma pequena procissão e a Senhora da Rocha foi metida no seu cantinho primitivo, onde ISADORA deixou acesa a lâmpada de azeite.

Todos os factos descritos aumentaram o entusiasmo popular e a romagem de fiéis, vindos não só das redondezas, como de lugares mais distantes., trazendo ofertas e donativos.

É neste clima de desconfiança e medo por aquilo que pudesse acontecer à Imagem daquela a quem chamavam de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, que começa a correr o desejo entre o povo da construção de um templo onde a Imagem não corresse qualquer perigo.

Da oliveira onde encontraram a adorada Imagem, nada sobrou. Considerada sagrada, dela as pessoas até as raízes levaram esburacando o solo e levando as pedrinhas mais próximas como relíquias.

Começa aqui a discussão entre os povos de Carnaxide, que afirmavam ser a sede da paróquia, e os de Linda - a - Pastora que retorquiam ser as margens direitas do JAMOR, onde está a gruta, do seu termo, não cedendo nenhuma das partes àquilo que consideravam serem os seus direitos, enquanto não houvesse um lugar sagrado para acolher a Imagem sagrada.

Aliás, Isidora Maria, casada com Manuel João, da Ribeira do JAMOR, segundo se afirma a primeira pessoa a prestar culto à Santa Imagem, seguida de muitas outras pessoas, também comungava da mesma opinião, chegando-se desta maneira à decisão de mandar fazer uma porta em forma de grades de ferro e um portal para a gruta, colocando lá dois guardas.

Passada no séc. XIX, esta história, tem o mesmo sabor das lendas velhinhas que falam do aparecimento de imagens santas por este país fora. Contudo, por ser recente, tem a vantagem de manter ainda os nomes verdadeiros dos seus intervenientes.