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O ENTARDECER

O ENTARDECER

O ANTES E O DEPOIS

 

Fala-se de dois mundos, qual deles o melhor, ou o pior. Noutros tempos era tudo muito mais fácil. Saber era linear e uniforme. Chegava-nos, por tradição, de pais para filhos de professores para alunos, Principalmente, de cima para baixo.

Havia um só poder muito bem localizado. Quem mandava era o mais velho ou um outro, suposto mais culto. Grandes discursatas davam rumo a tudo: a religião católica, o marxismo, a família nuclear, o casamento para sempre, o ataque ao autoritarismo salazarento etc. Do lado dos valores, destacavam-se a firmeza e a ordem. Aqueles ditos como diferentes eram facilmente marginalizados, face ao linear e ao uniforme. Na escola respirava-se a disciplina, branda e brincalhona, do tipo: vamos lá gozar um pouco com o nosso professor de português. Que obrigava os alunos a decorar uma estrofe do 1.º canto dos “Lusíadas”. Nos liceus da capital abundavam os “meninos família” ou estudantes oriundos da classe média, de tez branca e fatiota aprumada. Não eram raros, aqueles que fumavam às escondidas no pátio das escolas. As festas de anos eram organizadas pelos pais, sendo, não raramente, uma pura “seca”  A sexualidade era abordada dentro do mesmo sexo. O diploma escolar garantia emprego e também mobilidade social. Quem tivesse dinheiro, inscrevia-se numa faculdade. Os alunos do ensino técnico, arranjava emprego, mesmo sem qualquer cunha. A função pública absorvia muita gente, mas os mais aptos depressa saltavam para o privado, que pagava muito melhor. Só ficavam por lá os mais acomodados e, pouco ambiciosos. A função pública era o trampolim ou, se assim quisermos, um primeiro emprego de baixo salário.

Na família, em regra, os filhos não contestavam os pais. Detentores da verdade e experiência. Os pais resolviam os casos mais complicados, recorrendo mesmo ao cinto ou ao cavalo-marinho.

Hoje está tudo muito diferente. Os jovens sofrem influências muito fluidas, talvez por influência da “queda do muro de Berlim”, pois o 25 de Abril demoraria a chegar! Nas escolas onde anteriormente existiam pastas de couro, com cadernos arrumados, existem agora mochilas multicolores, com tudo a monte, canetas soltas e folhas de papel do caderno do vizinho. Poderes absolutos não existem. A autoridade de pais e professores, é posta em dúvida, só por vir de pessoas mais velhas. Os conceitos rígidos são afastados. Os valores tradicionais constroem-se na discussão de grupos de amigos. Quim Barreiros é aplaudido em simultâneo com os “Madre Deus “ou a Maria João Pires.

Pais e professore parecem não perceber que esta juventude já vive no século que se segue! Hoje, esta juventude usa palavras eruditas, lado-a-lado com obscenidades. As novas tecnologias determinam novos saberes e capacidades.

Os pais precisam convencer-se, rapidamente, que há uma realidade juvenil para além da escola e da família.

Os professores precisam convencer-se de que os seus alunos precisam de culturas juvenis centradas no quotidiano onde é permanente o provisório. Para vivermos todos juntos não pode haver certezas nem saberes absolutos. O pai só é verdadeiramente aceite se souber mostrar que também ele tem imperfeição.

O professor só terá êxito, se de facto ouvir os seus alunos e partilhar o saber na discussão de dois mundos em mudança. Um a acabar e outro a começar. Tenhamos o desejo de que este que começa, seja muito melhor do que aquele que está acabando.