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O ENTARDECER

O ENTARDECER

MODELO ARGENTINO

 

Segundo testemunham os presentes, Jorge Coelho reuniu empresários da construção civil e explicou: “A manutenção de estradas vai passar a ser feita segundo o modelo Argentino”. 

“Público - caderno de Economia”- 02-10-2000

Dias depois, um jornal dá a notícia, condimentando-a com declarações do secretário de Estado que especifica: “Vão-se construir cinco empresas regionais de capitais maioritariamente privados, que farão a manutenção das estradas nacionais nos próximos 3 anos”. Mais nos elucida de que, no entanto, “essas novas empresas terão um prazo de existência de 25 a 30 anos” anunciando que “o objectivo é não recorrer ao Orçamento de Estado”.

Será que o Governo descobriu a pólvora e afinal até é possível fazer estradas de borla? Ou será que não a descobriu, mas conseguiu convencer os privados a trabalhar gratuitamente para a comunidade? Uma coisa parece certa. Algo de muito excepcional aconteceu na Argentina, que um simples mortal não tem capacidade para enxergar, quando comparado com estes magos da governação moderna, que constroem sem recurso aos impostos.

Tenho consciência de que não passo de um desses simples mortais e, por isso, cruelmente privado de tudo aquilo que é exclusivo dos sobredotados. Por isso, no âmbito dos meus mais que modestos desabafos, vou ser seguramente injusto para com os sábios que nos governam, mas quem dá o que tem a mais não é obrigado. Para mim – repito, simples e modesto mortal – isto é tudo uma vigarice. É mais uma aldrabice saloia para desorçamentar despesa, transferindo-a para as gerações futuras a preços muito mais altos. Preços que incluem as margens de lucro dos intermediários financeiros e que o povo, durante os tais 25 ou 30 anos, pagará penosamente com os seus impostos.

Trata-se de um expediente para mostrar obra feita, mas não a pagar. Uma forma nada séria de endividar o país ocultamente e condicionar brutalmente os próximos governos. Uma táctica saloia e irresponsável que vai condicionar brutalmente o potencial de crescimento da nossa economia no futuro próximo.

Esta gente não paga as estradas, não paga o equipamento militar, não paga os carros que compra para a polícia, não paga o equipamento para os bombeiros e agora já nem a manutenção das antigas estradas quer pagar. Como diz J. Coelho na sua alegre inconsciência, vamos adoptar o modelo Argentino. É isso mesmo! É melhor voltarmo-nos para a América latina e esquecer a Europa, pois, com uma “política” económica destas, a convergência não será de certeza com a União Europeia.

É uma pena eu ser um simples mortal e não conseguir descortinar os atributos que estes criativos socialistas encontram nesta nova forma de “gerir” as finanças públicas. É uma pena, porque dormia bem mais descansado.

Rui Rio – A Política in situ – Junho de 2002