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O ENTARDECER

O ENTARDECER

Arte na Igreja de São Miguel

 

A Igreja de Queijas, inaugurada no ano de 1986, era um local de culto despido de imagens, onde sobressaía o betão. Passados 14 anos, surgiu a vontade e a necessidade de lhe dar outra vida.

Depois de ter executado, no ano passado, as telas dos " Mistérios do Rosário de Fátima" e os frescos em murais e no tecto da Igreja de Nossa Senhora do Cabo, em Linda - a - Velha, o pintor Vítor Lages meteu mãos a um trabalho inédito. Na Igreja de Queijas o artista pintou numa parede por detrás do altar, com 16 metros de altura por 12 de comprimento, um painel com seis metros de altura, alusivo à ressurreição, no qual Jesus Cristo aperta numa das mãos, um estandarte representando a vitória da Vida sobre a Morte.

Do painel, mural em técnica de "fresco seco" (tinta à base de água pintada sobre estuque), faz parte um tríptico intitulado " Três Marias " ( a mãe de Jesus, Maria Madalena e a mãe do apóstolo Tiago) , inspirado no que observou no Santo Sepulcro, em Jerusalém, local onde se deslocou propositadamente para melhor realizar esta obra.  

De resto, toda a obra se insere numa lógica religiosa. Da direita para a esquerda, começamos por encontrar as figuras da Sagrada Família, seguindo-se a representação de Maria com Jesus, o baptismo, a morte e a ressurreição, os louvores, e já do outro lado, o último painel representa a adoração ao próprio corpo de Cristo no sacrário.

As cores não foram escolhidas ao acaso : o azul representa a terra e o alaranjado a parte espiritual. A conjugação das diversas situações foi ordenada de forma a integrar alguns elementos que já existiam, como uma grande cruz do altar, que obrigou o artista à realização de um estudo para a disposição dos elementos visuais. Um vitral que se encontra na extremidade do painel principal, representava também um desafio, devido ao problema dos raios solares, que poderiam afectar a obra. Mas parece ter sido solucionada da melhor forma, através da instalação de uns protectores de fibra que impedem os raios ultra-violeta de penetrarem. De resto, a importância deste vitral é fundamental para o resultado visual do painel principal, pois quando o sol entra, cria uma projecção ultra colorida, quase irreal, onde as cores e os reflexos encantam até o olhar mais despercebido.

Quando pela manhã o sol brilha na igreja de Queijas, entra por um vitral representando a luz de Deus e ilumina uma pintura de moderna arte sacra, dando-lhe um brilho que nenhum pincel conseguiria.

Seguindo a tradição de pintura ultra-realista em que se insere, Vítor Lages aproveitou a tal cruz de ferro que existia já na parede para criar um efeito especial, pintando reflexos que se dirigem a três legionários romanos "representados como o Mal". "A cruz combate-os com a sua projecção" explicou o pintor. Ao lado do túmulo vazio, uma figura jovem com vestes luminosas, representando um anjo, contempla a cena. Nenhuma das figuras olha para Jesus, que sobe aos céus.

Apesar de não ser católico, Vítor Lages tem lido as Escrituras regularmente, para " tentar entrar no espírito" e dar, além do aspecto figurativo da pintura, uma mensagem. "É aquilo que faziam no renascimento, as pessoas não sabiam ler", e as pinturas nas igrejas eram um catecismo ao alcance de todos, referiu o pintor.