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O ENTARDECER

O ENTARDECER

A MÁQUINA DA VERDADE

 

Sociedades secretas

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair propôs recentemente a divulgação dos nomes dos magistrados, militares e polícias associados a organizações secretas, ou discretas, como a maçonaria.

A proposta de Blair faz um certo sentido. Numa sociedade aberta e democrática, como são hoje praticamente todas as sociedades ocidentais, haverá razão para a existência de associações cujos membros não se dão a conhecer? O facto de esses elementos, sobretudo aqueles com responsabilidades elevadas no Estado, como magistrados, poderem ter obediências não conhecidas, não acaba por lhes conferir vantagens ou possibilidades superiores (ou, pelo menos desiguais) às dos seus colegas que não contam com as mesmas fidelidades? De certa forma, esta questão é semelhante à que levou a muitos liberais protestantes na Inglaterra e na América a, no passado, desconfiarem dos «papistas», uma vez que estes, na sua condição de católicos romanos, deviam obediência a um «líder» estrangeiro.

Uma sociedade aberta é, por definição, uma sociedade transparente. Não obviamente, como às vezes se confunde, do ponto de vista da privacidade dos indivíduos, mas na perspectiva de que todas as relações e contratos assumidos devem ser públicos. É, além disso, uma sociedade na qual os valores, sejam eles os da Liberdade e fraternidade maçónica, ou os do catolicismo de organizações como o «Opus Dei», não estão e não podem estar ameaçados, precisamente porque é uma sociedade aberta, onde se respeitam as convicções individuais que não prejudiquem o conjunto.

Desse ponto de vista, a confidencialidade da maçonaria ou do «Opus Dei» é claramente contraditória com a própria sociedade. Enfim, fará tão pouco sentido como um partido clandestino. E se é verdade que as leis impedem, pelo menos em Portugal, a actividade partidária de, por exemplo, militares e magistrados, por que razões não podem controlar, ou verificar, a sua filiação em organizações não partidárias, mas com sérias influências na esfera social e política?

Claro que tudo isto é mais complicado do que parece na simples exposição de princípios. Em Portugal sabe-se que muitos dos problemas políticos no interior dos partidos passam pela existência de solidariedades MAÇÓNICAS OU DO «Opus Dei». Mas também é certo que existem teias construídas nos sindicatos, nos antigos alunos de uma Universidade, nos clubes desportivos, nos ex-membros de organizações de juventude e, seguramente, de diversos outros modos mais ou menos incontroláveis.

Os próprios estados de sociedades abertas e democráticas não se sentem, aliás, suficientemente seguros para prescindirem, por exemplo, de organizações secretas, como os serviços de informação. Porque admitem a existência de ameaças, internas ou externas, cuja prevenção é necessária.

Do mesmo modo, há quem entenda que determinados valores podem estar em perigo, podem ser postos em causa, razão pela qual vêem a necessidade de uma organização de «guardiães», um autêntico núcleo duro, secreto e discreto, capaz de resistir e enfrentar os inimigos desses valores e, simultaneamente, disposto a ocupar os principais lugares da sociedade para os promover.

A proposta de Blair fará sentido no plano meramente teórico. Mas é totalmente ingénua no plano prático.

HENRIQUE MONTEIRO - Expresso