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O ENTARDECER

O ENTARDECER

A DIMENSÃO DA TRAGÉDIA

Em meados da década de sessenta do último século, era esta a situação relativamente a bairros de barracas na freguesia de Carnaxide, na qual estavam incluídas Queijas, Linda - a - Pastora e a Senhora da Rocha.

Todo o panorama se viria a agravar, muitíssimo, com o decorrer dos anos.

Nomeadamente depois da descolonização, posterior ao 25 de Abril de 1974.

Não foram só os portugueses a regressar a Portugal, vindos de todas as ex-colónias, como milhares de pessoas que eram naturais daquelas colónias, que hoje são países independentes.

Em 1985 somavam 5000 as barracas no concelho de Oeiras.

Descrever a realidade vivida nos bairros de barracas, não é tarefa fácil, dada a grande complexidade e promiscuidade que eles envolviam.

Uma existência sem um mínimo de dignidade, sem água, sem luz, condições mínimas de higiene, promiscuidade em família e com os vizinhos, etc.

Dos bairros de barracas de Queijas, Linda - a - Pastora e Senhora da Rocha, poderei dizer alguma coisa porque os visitei várias vezes e, até lá convivi com os seus habitantes.

Assim, tanto os Taludes de Queijas como o Beco dos Pombais, Eira - Velha, Atrás dos Verdes, em Linda - a - Pastora, e a Senhora da Rocha, poderemos dizer que são realidades parecidas, não iguais.

Taludes de Queijas as pessoas que viviam nos Taludes de Queijas nunca conseguiram integrar-se na população desta vila, o que também se passou com os moradores do Alto dos AGUDINHOS que, embora não pertencendo a esta freguesia, era aqui que trabalhavam e faziam a sua vida, dada a proximidade desta vila.

Os taludes são elevações que acompanham a Estrada Militar dos dois lados e que, naturalmente, procuravam proteger os movimentos militares nesta via.

As barracas aqui surgidas situavam-se na parte final desta estrada e do seu lado direito, para quem caminha no sentido da A5 (em tempos mais recuados auto-estrada do Estádio).

Em boa verdade os taludes não eram só a parte mais elevada que ladeia a estrada militar, mas também uma faixa de mais ou menos dez/doze metros de terreno que, já na parte final de acesso à A5 se alargava muito mais.

Era exactamente nesta zona que estavam as barracas e que no seu conjunto atingiriam muitas dezenas.

Os taludes eram propriedade do Exército e, por essa razão, ainda hoje é possível falar com pessoas que lá viveram e ouvi-las contar histórias algo insólitas: por exemplo narrarem que era nesta faixa final e muito larga dos taludes que nos anos sessenta e princípios dos anos setenta, os serviços militares vinham depositar as urnas, desmanchadas, nas quais os mortos das guerras coloniais eram trazidos para a metrópole para serem entregues às famílias.

Grande número de vezes era com estas tábuas que as pessoas faziam as suas barracas.

Em Linda – a – Pastora, com as pessoas que viviam nos vários bairros de barracas tudo foi diferente. Houve integração conseguida, que passava pela sua participação diária na vida daquela localidade, como bombeiros, clube da terra, cafés, namoros, casamentos etc.

Um dia viria em que tudo teria de ser mudado. A existência da realidade desta pobre gente, teria que ter um fim para melhor.

A Câmara Municipal de Oeiras foi fazendo o levantamento da situação aos poucos, mas com grande segurança, como, de resto, a situação exigia.

Percebia-se haver grande vontade de erradicar uma situação vergonhosa aos olhos de toda a gente, sem cuidar de adiar aquilo que o não devia ser.

Em 1997 já o realojamento tinha percorrido um longo caminho de estudo e estratégia e, a partir daí pudemos ser testemunha deste grande envolvimento social, com várias vertentes, e por isso, ângulos de observação muito díspares, senão mesmo insensíveis, diferentes, ou até desonestos.

Do ponto de vista de uma freguesia, como a de Queijas, com meia dúzia de bairros de barracas, este problema merece ainda hoje, cuidada leitura.

Se a existência destes bairros, deveras imoral, produzia efeitos contagiantes negativos, por desertificantes, nas áreas circundantes, a verdade é que a sua eliminação também iria provocar comentários e reacções, que não poderiam ser ignorados.

Do lado político, os partidos da oposição, talvez preocupados com o prestigio advindo do êxito do realojamento, cuidavam de atacar cada passo dado em frente, denegrindo o feito com o argumento de que as pessoas deveriam ser realojadas nos locais onde viviam. Era um argumento sem estudo, logo não elaborado, mas que permitia criar muito descontentamento.

Creio que com origem política, apareciam boatos que incendiavam as populações residentes.

O mais propalado nesta freguesia, era de que os habitantes da famosa "Pedreira dos Húngaros", seriam realojados em Queijas.

O descontentamento era geral e chegou ao ponto de, o Presidente do Conselho Escolar de uma dada escola local, ameaçar o presidente da Junta de que os professores estavam quase todos a pedir transferência por esse facto.

A actividade do presidente da Junta, apesar de trabalhar noite e dia, era em grande parte absorvido com o atendimento das pessoas a realojar.

Nessa medida optou por assegurar reuniões na freguesia com o vereador envolvido e as populações, com dificuldades a resolver no seu realojamento.

Numa dessas reuniões, no salão dos bombeiros de Linda - a - Pastora, com a lotação esgotada, os trabalhos foram repentinamente interrompidos por dois arruaceiros, um implicado no realojamento e outro, sempre ao serviço de determinado partido, que não estava ali como pessoa a realojar e só pretendia boicotar a acção desenvolvida de ajuda a quem precisava.

Acalmados os ânimos por intermédio de uma senhora envolvida no realojamento, num acto corajoso, os trabalhos continuaram e foram obtidas decisões favoráveis " in loco", para muitas aflições humanas ali presentes.