Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O ENTARDECER

O ENTARDECER

HEROIS ADIADOS

 

Fernando Pessoa dizia que "o português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja, porque somos um grande povo de heróis adiados".

Não se saberá se de todo tinha razão. Mas sabemos que não são poucos na história da nossa cultura os nomes e as obras de quem sempre desejou remar contra a maré e emendar o rumo da nossa própria navegação. Porque de longe sempre se levantam as vozes daqueles que, no ato de definirem as tendências naturais e históricas, no plano da cultura e da política, da realidade social e geográfica, desta "arte de ser português", a seu modo contribuíram para o entendimento dos mitos e razões que da nossa identidade cultural a cada passo tanto se fala. E se a essa vaga de um modo de "pensar claro" houve vozes que quiseram, na insistência das próprias motivações filosóficas e históricas, aliar o espírito de quebrar ou vencer algumas barreiras, tudo se pode encarar ou interpretar a outra luz dentro da nossa plena integração europeia. Mas trata-se ainda de contos largos, que dão origem às ideias mais contrárias ou se configuram como razões de outros interesses ou posições. Não é disso que importa aqui falar.

Impõe-se levantar algumas pistas em redor dos problemas da nossa sociedade. De ontem e de hoje, claro: muito velhos e antigos se manifestam os "vícios" da portugalidade, se a entendermos nesse sentido de onde vimos, quem somos e para onde vamos?, porque antiga e repetitiva é a herança da nossa secular dependência, velhos e antigos são os males e os vícios históricos que nos definem entre outros povos, e muito abordados têm sido essas questões desde Herculano, Antero e Oliveira Martins até Pessoa, António Sérgio ou Pascoaes.

Mas se a história das nossas "dependências" económicas e culturais está feita, se porventura a definição e entendimento dos nossos males e bloqueios culturais está determinada, não deixa ainda de ser interessante que pelo esforço lúcido e inteligente de "repensar" a nossa identidade, mesmo com o risco de ser um "discurso" já conhecido, repisando outras posições e atitudes ideológicas que, no correr dos anos, se não tem calado ou silenciado na leitura crítica dos problemas da sociedade portuguesa. No entanto, revela-se uma posição firme de compreender o que de facto mudou depois do 25 de Abril, se acaso mudou alguma coisa de essencial. É um esforço sociológico sensível e otimista, que analisa todas as nossas dependências e mitologias, das descobertas à emigração, da dependência económica de séculos até à tão apregoada "vaga de felicidade" trazida pelos ventos da comunidade europeia, das razões da história ou da brandura dos nossos próprios costumes, enfim da herança de uma consabida pobreza e dos diferentes mitos sebastiânicos e saudosistas de quem soube erguer e perder um vasto império. Deseja-se sobretudo indicar o caminho que nos trouxe a este porto, quando de todo parece que perdemos o leme e à deriva prosseguimos no esforço da nossa afirmação histórica e cultural.