Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O ENTARDECER

O ENTARDECER

CAUSAS DA NOSSA EMIGRAÇÃO EM MASSA

 

Apesar das consequências da emigração em massa terem sido muito mais graves no interior do país, todo o território nacional sentiu uma quebra de população jovem e adulta.

 

Resultado de imagem para foto de aldeia abandonada

- Sentiu-se acima de tudo a falta de gente para trabalhar logo, menos procura no emprego.

- Grande decréscimo na taxa do desemprego.com subida de salários

- A população diminuiu, principalmente a activa.com abandono dos campos e culturas habituais, aumentando   a mecanização. Começou aqui, o abandono do interior!

- A taxa etária suportou desequilíbrios na sua estrutura habitual

- Aumento do analfabetismo

- Mais envelhecimento da população.

- Entrada de dinheiro estrangeiro no país, enviado pelos emigrantes.

- Subida do PIB, de forma automática.

Se quisermos tirar algumas conclusões desta realidade e, acima de tudo, encontrar quem mereça os méritos ou deméritos destes dados históricos, em primeiríssimo lugar estariam aqueles que com lágrimas nos olhos abandonaram a sua pátria e família para terem aquilo a que tinham direito na sua terra, um emprego e a família junto de si. Depois, a população no seu todo, porque é ela que com sacrifícios e muitos impostos, suporta as vantagens e desvantagens destas situações! Se algum político quiser para si algum mérito, aproveitando-se disto e não assumindo as suas responsabilidades, neste caso, resta-nos um profundo lamento e muita tristeza.

 

 

 

Do património edificado

 

 

Surgem menções à existência de uma ermida muito antiga no ponto mais elevado do lugar, Ermida de S. João Baptista, da Casa de Cesário Verde, naturalmente, e de algumas boas quintas de recreio onde abundavam bonitos pomares.

 

As quintas de recreio

Desta região começaram a ser procuradas pelos intoxicados e endinheirados pela cidade, para férias das suas famílias e as necessárias mudanças de ares.

Neste lugar tão graciosamente virado a nascente, que se espraia de forma curiosa pela encosta abaixo, desde o alto do monte ao fundo do vale, também havia bonitas quintas.

Na encosta de Linda a Pastora, no cimo da Serra de S. Miguel, ficava a muito conhecida "Quinta dos Grilos". Terá sido mandada construir pelos religiosos de São Domingos, para nela passarem férias. Depois, por volta de 1865, foi possuída por uma família de nome "Grilo". Mais tarde pertenceu a Madame Bayloni, consta que de nacionalidade jugoslava. Passou por um período de certa degradação, causada pelas inundações e explosão do Forte do Carrascal, em meados do último século. Hoje está lá a funcionar um óptimo e bonito aldeamento turístico.

Mais abaixo ficavam outras duas quintas, também elas muito conhecidas e admiradas, a "Quinta MIRABELA" e a "Quinta de S. Domingos".

A "Quinta da MIRABELA", certamente assim chamada pela sua esplêndida situação, passou por vários donos, mas foi mandada construir por uma senhora peruana. Comprada depois pela empresa Abel Pereira da Fonseca, foi mais tarde cedida ao Banco Nacional Ultramarino.

Entretanto foi de novo comprada para nela se fixar a próspera empresa CIREL, Consórcio Industrial de Refrigerantes de Portugal, SARL, tendo principiado a sua actividade em 1963. Anos mais tarde é novamente comprada para nela ser instalada a empresa PAPELACO, onde funciona nos dias de hoje.

A "Quinta de São Domingos" ficou celebrizada por ter sido a mansão onde Cesário Verde viveu (Quinta dos Verdes) e hoje está lá instalado o Centro das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, a CONFHIC.

O flagelo

 

 

Das epidemias de cólera e febre-amarela, em 1833, veio mergulhar toda esta região em clima de retrocesso acentuado, tendo dizimado muitas pessoas.

De uma forma bastante estranha a morte ceifava lados inteiros de ruas, para no outro lado poupar as pessoas. Já não havia braços para tanto funeral!

Vinda da capital, a peste dizimou lugares como Linda – a - velha, OUTORELA, Carnaxide, Queijas, Algés, Cruz Quebrada e por dois meses pareceu poupar Linda a Pastora. As terras e muitas casas iriam ficar abandonadas.  

Mesmo, assim, muita gente para aqui veio viver, confiada nos bons ares destes lugares.

A Senhora Francisca

 

Quem haveria de dizer que uma lavadeira de Linda – a - Pastora entraria na história da literatura portuguesa! Pois, tal aconteceu. Foi a Senhora Francisca, lavadeira bem conhecida do lugar, que " deu a última e, ao que parece, mais correcta versão que do presente romance se tinha obtido.

Deixo, pois, notações somente das principais versões da lenda, ou seja, acrescentarei mais esta outra, que a lavadeira de Linda - a - Pastora, de nome Sr.ª Francisca, terá contado a Almeida Garrett, durante o verão que aqui passou e que foi por ele publicada no "Romanceiro" :

 

  • Linda pastorinha, que fazeis aqui?

Procuro o meu gado que por aí perdi.

- Tão gentil senhora a guardar o gado!

Senhor, já nasce com este fado.

  • Por estas montanhas em tão grande p'rigo !

Diga-me, ó menina, se quer vir comigo.

Um senhor tão GUAPO dar tão mau conselho,

Querer que se perca o gado alheio!

  • Não tenha esse medo que o gado se perca

Por aqui passarmos uma hora de sesta.

Tal razão como essa não na ouvirei:

Já dirão meus amos que demais tardei.

  • Diga-lhe, menina, que se demorou

Co esta nuvem de água que tudo molhou.

Falarei a verdade, que mentir não sei:

A volta do gado eu me descuidei.

  • Pastorinha, escute, que oiço BALAR o gado...

Serão as ovelhas que me têm faltado.

  • Eu lhas vou buscar já muito depressa,

Mas que me ESPEDACE por essa charneca.

 

Ai como vai grave de meias de seda!

Olhe não as rompa por essa RESTEVA.

  • Meias e sapatos tudo romperei

Só por lhe dar gosto, minha alma, meu bem.

Ei - lo aqui vem; é todo o meu gado

  • Meu destino foi ser vosso criado.

Senhor vá-se embora não me dê mais pena,

Que há - de vir meu amo trazer-me a merenda.

  • Se vier seu amo, venha muito embora;

Diremos, menina, que cheguei agora.

Senhor, vá-se, vá-se, não me dê tormento:

Já não quero vê-lo nem por pensamento.

  • Pois adeus, ingrata Linda - a - Pastora!

Fica-te, eu me vou pela serra fora.

Venha cá, Senhor, torne atrás correndo.

Que o amor é cego, já me está rendendo.

Sentaram-se à sombra. Tudo estava ardendo...

Quando elas não querem, então estão querendo.

A lenda desta pastorinha

 

 

Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabia e cantava. Vejamos então esta outra versão da mesma lenda:

 

Em tempos remotos veio fixar a sua residência nestas terras, um dos fidalgos mais queridos do seu monarca, que pelos seus feitos e, pela nobreza de seus antepassados, a breve trecho era o senhor feudal de grandes propriedades com as quais tinha sido contemplado pela grácia régia.

Novo ainda, e tendo perdido os seus maiores nas gloriosas batalhas de África, a vida de celibatário corria-lhe cheia de monotonia, na labuta do amanho dos campos, quando um dia, perdendo-se numa das caçadas que costumava promover, encontrou num dos povoados da serra uma gentil moça por quem se sentiu apaixonado, em virtude dos encantos com que a natureza a tinha dotado.

Rendido pelos encantos dessa mulher e avesso aos preconceitos ligados à sua condição de fidalgo, dentro em breve, unia, numa capelinha do sítio, o seu destino ao da jovem por quem se apaixonou.

Foram vivendo felizes até que um dia ela, timidamente, lhe anunciou que iria ser mãe. Em boa verdade, sete meses decorridos após o seu casamento, era presenteado com uma encantadora menina, que longe de vir trazer mais alegria ao lar, lhe traria luto e desolação, porque o fidalgo, pouco dado a letras e desconhecedor dos fenómenos da gestação, viu no prematuro parto uma infame traição de sua esposa.

Assim, magicando, e em sucessivas noites de tortuosas vigílias, resolveu abandonar o seu solar e com ele sua esposa e filha, indo esconder bem longe de terras portuguesas a sua presumida desonra.

Uma madrugada, antes que o sol fosse nado, e sem que a sua esposa nem nenhum dos seus vassalos desconfiasse da decisão que tinha tomado, emalando todas as jóias, e arrecadando todos os seus pergaminhos e mais valores, abalou até um porto mais próximo, onde se fez embarcar num frágil batel e conduzir a bordo de uma caravela que próximo se balouçava nas poéticas águas do nosso famoso Tejo, tendo previamente deixado, como padrão do seu infortúnio, uma tosca cruz na praia onde se havia embarcado.

Desfraldadas as velas ao vento, e depois de haver volvido os olhos para as terras onde ficavam para sempre sepultados os seus amores e os dias mais felizes da sua vida, com o coração torturado pela dor mais profunda, foi-se pela barra fora, a caminho duma corte onde pudesse, no calor das batalhas e no estontear das intrigas, esquecer as suas mágoas...

Desembarcado que foi em terras estranhas, fácil lhe foi encontrar um lugar prestigiado na corte do monarca que regia esses povos.

Dentro em breve, o seu valor guerreiro e as suas fidalgas qualidades de carácter, fizera prender a atenção desse rei, que o colocou ao seu serviço como aio e confidente.

Tratando-se por essa época do consórcio do monarca foi, então, o nosso herói encarregado dos preparativos dos esponsais, e por tal forma se houve que mais se afirmou no espírito do seu amo e senhor...

Volvidos sete meses, a rainha presenteava o seu augusto esposo com um formoso bebé, o que veio encher de nova e amargurada surpresa o fidalgo português, porque tendo recorrido a vários físicos da corte a perguntar-lhes a razão de tal fenómeno, eles explicaram-no em poucas palavras.

Compreendeu então o seu erro, e a grande falta que havia cometido para com aquela que tanto havia amado, e que foi desprovida de recursos, e coberta de miséria, havia, ao ver-se abandonada por seu marido com uma inocentinha criança nos braços, recorrido às magras sopas de sua pobre mãe, que bondosamente a acolheu e lhe ajudou a criar o fruto dos seus infelizes amores.

Resolveu então voltar a Portugal e procurar sua esposa para lhe solicitar perdão pela falta cometida.

Ei-lo de volta, a caminho do seu abandonado solar, outrora tão altivo e cuidado, e agora votado ao maior abandono, como se um sopro de maldição houvesse por ali passado.

Caminhando, em tudo encontrava como que restos de recordações felizes, com que a sua alma ainda viril se ia reanimando, almejando só o momento feliz em que carinhosamente havia de estreitar nos seus robustos braços a sua mulherzinha, por quem tanto havia já sofrido.

Nesta preocupação de espírito, deparou ao longe com uma encantadora criança, duns sete para oito anos, que descuidada pastoreava um pequenino rebanho.

Dirigindo-se-lhe perguntou-lhe:

Linda pastora, sabeis dizer-me onde poderei encontrar por estes sítios uma infeliz mulher que tendo sido casada com um dos maiores fidalgos destes reinos foi por ele cruelmente abandonada?

Sim, meu senhor, - Retorquiu a pequenina pastora. - Vinde comigo, que vos levo ao seu encontro. A pobrezinha, que leva a vida a chorar a sua desdita, é minha mãe, e mora além, naquele casal, com a minha avó...

Um raio que tivesse caído aos pés do fidalgo, não teria produzido nele o efeito que tais palavras produziram!

Calou-se no entanto, e seguiu a sua linda interlocutora.

Chegado que foi ao ponto indicado, encaminharam-se para uma velha arribana, onde o alinho e o conforto indicavam que ali existiam criaturas cuidadosas, mas onde se notava a maior miséria. Apareceu-lhes no beiral da porta uma mulher ainda nova, de uma formosura bem evidente, mas em cujo rosto se notavam os vestígios de profundos desgostos, com os cabelos já grisalhos e os olhos magoados por muitas lágrimas vertidas, e na qual o fidalgo reconheceu logo a sua infortunada esposa. Caindo-lhe aos pés verdadeiramente alucinado, exclamou:

Linda velha! Perdoa o meu grande crime e vem comigo reatar os laços do nosso passado amor!

Não! - Exclamou ela. VÓS que não tivésteis rebuço em pôr em dúvida a minha honestidade e que como vosso gesto proclamásteis perante estes povos a minha infidelidade, não podeis jamais ser o meu leal companheiro!

Ide-vos, senhor, porque não quero reconhecer em vós aquele que, entregando todo o meu amor, toda a minha vida, me feriu e a minha filha, no que nós, pobres descendentes do povo, temos de melhor - a Honra!

O fidalgo, acabrunhado com essa justificada altivez de carácter, e como tendo repulsa de si próprio, voltou pelo mesmo caminho, aturdido, com o que se havia passado. Sem saber como, encontrou-se junto da cruz que havia deixado quando embarcou para as longínquas terras donde havia regressado, e dirigindo-se a ela, derrubou-a ao mesmo tempo que dizia:

Cruz! Eu te quebro para que não fiques aí mostrando aos meus vindouros a injustiça que pratiquei com a mais virtuosa das mulheres portuguesas!

E assim, através dos séculos e segundo reza a lenda, ficou perpetuado um erro e a história de tristes amores com a denominação de três das mais florescentes e encantadoras povoações que eram da freguesia de Carnaxide...

Linda - a - Pastora, Linda - a - Velha e Cruz Quebrada.

 

Aninha - a – Pastora

 

 

Conta a lenda que há muito tempo, talvez no tempo dos Afonsos, apareceu no vale do JAMOR uma pastorinha com o seu rebanho. Ninguém sabia de onde ela viera, mas também a ninguém interessava saber. E a pastora por ali ficou, achando o local propício para si e para as suas ovelhas.
Todas as manhãs pela aurora a pastora banhava-se na ribeira que atravessava o vale, límpida e cantante. Depois, durante o resto do dia, entretinha-se a cantar ou a correr atrás dos borregos. Por vezes parava horas a fio olhando os ramos das árvores ou observando os pardais a construir ninhos ou a dar de comer às crias.
No Inverno, quando o tempo custava mais a suportar, a pastora escondia-se com o rebanho sob as fragas, esperando que a chuva parasse, agarrada às suas ovelhas preferidas para manter o calor.
Assim passava o tempo a pastorinha que um dia chegou ao vale do JAMOR com um rebanho de ovelhas.
Certo dia, porém, passou por ali um cavaleiro (que alguns dizem que era o rei) em vistosa cavalgada, acompanhado de alguns moços de armas que iam MONTEAR no vale. Os olhos do cavaleiro deram subitamente com os da pequena pastora, que, encostada a uma árvore, bebia tranquilamente uma vasilha de leite. Surpreendido com a inesperada visão, o cavaleiro exclamou:
--Meu Deus, como será possível que tal beleza exista assim perdida neste vale?!
E, maravilhado, o cavaleiro tentou saber da pastora tudo quanto lhe dizia respeito:
--Onde vives, pastora?
--Por aí, senhor.
--Na aldeia, queres tu dizer?
--Não. Vivo aqui, no vale, com estas poucas ovelhas.
--A quem pertence o rebanho, pastora?
--A ninguém, meu senhor. Encontrei-o no caminho e seguiu-me até aqui.
--Não vais querer que eu acredite nessa história, mulher?! Diz a verdade!
--Senhor, acreditai que esta é a verdade!
O velho aio do cavaleiro, que ouvia a conversa, inquieto com o que parecia simples de mais, interveio:
--TENEDE cuidado, meu amo. A pastora mais parece o demónio a tentar-vos!
A rir, o cavaleiro respondeu-lhe:
--Ora, velho aio! Se o demónio fosse tão belo como esta mulher, fácil lhe seria tentar o mundo! Deixai-vos disso!
--Pois, meu amo, vamos ver se o que digo não é verdade! -- E virando-se para a pastora, que tremia, perguntou: Onde está a tua família, rapariga?
--Não tenho ninguém.
--Como te chamas?

Não sei, nunca ninguém me chamou...
--E as ovelhas, encontraste-as?
--É verdade, senhor.

--Pois vede, meu amo, se tudo isto não é muito estranho! Por mim, acho que deveis ter cuidado!

--Ora, velho medroso! Que há de estranho numa pastora que vive sozinha e não tem família. Depois...é tão bonita!
Enquanto isto dizia, o cavaleiro olhava a pastora, sentindo crescer em si uma ternura magoada e dolorida por haver quem fosse obrigado a viver em tal solidão. E num repente, como quem sente uma necessidade súbita e insuportável de suprir os desamores da vida, o cavaleiro disse suavemente à pastora:
--A partir de hoje nunca mais viverás só! Vou levar-te para a corte!
--Não quero sair daqui, senhor! Murmurou perentória a rapariga.
--Pois então, virei eu viver contigo! Mandarei construir uma casa para ti e um redil para as ovelhas.
E, virando-se para os acompanhantes, ordenou: --Senhores, trazei vestidos e joias, mandai vir pedreiros e artífice que quero uma casa aqui! E tu--acrescentou virando-se para um deles--; tu que sabes vestir e pentear, aninha a pastora!
Sem mais uma réplica, obedeceram os companheiros do cavaleiro--ou seria rei? No vale do JAMOR cresceu uma casa onde viveu o cavaleiro com a pastora que mandara aninhar. E à volta dessa casa surgiu, pouco a pouco, uma povoação que durante muito tempo se chamou Aninha - a - Pastora. Hoje, passaram-se os anos, esqueceu-se a lenda, e Aninha - a - Pastora chama-se Linda - a - Pastora.

 

"Lugar da freguesia de Carnaxide, com ermida"

 

Mas ainda não foram convenientemente explicados os topónimos Linda – a -Pastora e Linda - a - Velha.

As hipóteses são várias, de várias origens, mas a mais citada é a de Leite Vasconcelos que considerava Linda substantivo verbal de LINDAR (em latim limitar). Mas o facto é que a forma anterior da primeira parte dos dois topónimos era NINHA. Assim, em diplomas de 1319 há referências ao "RYO de NINHA" e à "Água de NINHA"; Nastro de 1374 lê-se: "...em lugar que chamam NINHA a VELHA termo da dita cidade (de Lisboa)...) Daqui se depreende que importa explicar primeiro NINHA e depois como esta forma foi substituída por Linda. Neste último caso teria havido um prurido anti-espanhol que impôs a substituição do suposto representante do castelhano "NINA" por um quase homófono vernáculo, Linda.
E a que se deve esse NINHA? Talvez o devamos ligar a "NIRE", a "Penina" e a outros topónimos de origem Céltica, não esquecendo fora de Portugal, "Apeninos" (Itália) e "Pennire" (Inglaterra), todos aplicados a lugares altos ou na sua vizinhança; em Galês "neu" é: céu, tecto, telhado.
Outra versão da origem dos topónimos são as lendas que foram geradas em volta da beleza da velha e de Aninha - a - Pastora as quais foram referidas mais atrás.

 

Outro fontanário, outros tempos.....

 

Neste lugar que serviu de inspiração a vários poetas, como uma espécie de retiro espiritual, surge associada uma outra figura, tão ou mais poética, tão ou mais romântica.
A jovem pastora é retractada com seu rebanho nos azulejos de outro fontanário, situado ao lado da avenida Tomás Ribeiro, em Linda - a - Pastora.

Hoje alindado, feito jardinzinho e em simultâneo miradouro, e que também vai servindo de local para descanso de gente mais cansada ou pensativa.

Sobre esta pastorinha consta um bonito poema da autoria de Jorge Verde, irmão do conceituado Cesário Verde, dedicado a esta figura que merece o carinho desta população;

 

Há na Terra uma Pastora

Que está sempre olhando o mar,

Não é morena nem loira

E é branca como o luar.

 

Chamamos linda a pastora

Que os dias passa a cismar

Numa encosta encantadora

Que de longe olha p' ra o mar.                                       

 

Determinados autores apontam, contudo, designações como NINHA PASTORA e Linda Pastora, que poderão estar na base do termo Linda - a - Pastora, podendo aqueles referirem-se à proximidade do RYO NINHA (século XIV), sendo que o termo "NINHA", de origem céltica, se encontra associado aos "lugares altos ou na sua vizinhança".

As lavadeiras

 

Constituíam a ocupação mais numerosa no século XX, ocupando pessoas de qualquer dos sexos na antiga freguesia de Carnaxide.

O levantamento eclesiástico de 1865 (Pie Francisco da Silva Figueira, " Os primeiros Trabalhos Literários" ) dá - nos conta da existência do total de 191 (?), assim sendo distribuídas: Carnaxide, 43; Linda – a - Pastora, 44; Linda - a - Velha, 14; OUTORELA, 12; Portela, 2; Algés, 40; Praias, 10; Queijas, 16; e dispersas, 10.

Para se ter a noção do peso desta ocupação, convirá dizer que, logo a seguir, surgem as criadas de servir, em número de 36, e as costureiras, com 20. Entre os homens a profissão que envolvia mais pessoas era a de trabalhador da lavoura - 108.

Embora mal remunerado, o trabalho da lavadeira constituía uma ajuda importante para as parcas posses dos agregados familiares. Daí o elevado número de mulheres que, em toda a cintura saloia de Lisboa, se ocupava nesta tarefa, desde a juventude até à velhice. E assim. Era vê-las, todas as segundas feiras, estrada fora, a caminho da capital, em cortejo, escarranchadas na albarda do burro ou de carroça, entre trouxas, a fim de devolver às clientes a roupa já lavada - bem branca pela acção do sol e cheirosa pelos odores silvestres de onde fora depositada a corar.

Regressavam já tarde ou no dia seguinte, ajoujadas de entre trouxas, agora de roupa suja que a água do JAMOR e a força dos seus braços branqueariam. Aproveitavam e vendiam às clientes ovos e queijos frescos que também levavam, com essa intenção. No regresso traziam mais uns cobres que muito ajudavam a saciar as dificuldades caseiras.

Este trabalho era pesado e pernicioso para a saúde. Mas a necessidade a tal obrigava. Há séculos que o saloio desempenhava        

 

No Rio das Lavadeiras

 

Os ares eram lavados, a água cristalina, a várzea agricultada, as antigas azenhas e moinhos de vento, estes empoleirados nas cumeeiras e encostas marginais, constituíam as ancestrais marcas que caracterizavam o bucólico e atractivo vale da ribeira do JAMOR, até quase ao termo da primeira metade do século XX. Depois, a avassaladora onda de expansão urbanística quebrou o sortilégio paisagístico, poluiu a ribeira, desfez equilíbrios naturais. E perdeu-se um dos mais cantados "recantos" do concelho de Oeiras.

Uma referência era pois a ribeira do JAMOR, ainda é comum encontrarem-se muitos avós em Queijas e Linda - a - Pastora, que nadaram neste percurso de água hoje muito debilitado.

Será certamente com muita emoção para eles, lerem a descrição que o jornalista Rocha Martins dele fez;

 

 "O JAMOR é um ribeiro torci colante desde Belas, formam-no dois riachos e, passando por Queluz e na baixa de ARENQUE, saltita nas pedras, ora alastra e EMPOÇA, ora se aprofunda e adelgaça, tendo largueza junto a S. Romão de Carnaxide, onde se miram em suas águas árvores verdes, MOITEDOS de silvas e abrunhais bravos. Durante três léguas, brinca e gorgoleja, ruge nos invernos; pacifica-se nos verões e vai ligar-se ao Tejo, na Cruz Quebrada, já sem rumores, anémico, cansado. Teve, por vizinhança, reais velas brancas de Moinhos, PEGUREIROS e princesas, paços e lugarejos de nomes lendários - a NINHA - a - Pastora, a NINHA - a - Velha, - viu mendigos e milagres."

 

Mas também, em 1945, José Dias Sanches (OLISIPO, n.º 32) ainda assinalava: " (... ) o rio JAMOR , o rio das lavadeiras, o rio campesino serpenteando as viçosas hortas e os verdejantes pomares".

 

Referenciando a ligação histórica do JAMOR às lavadeiras, Branca de GONTA Colaço e MARIA ARCHER, nas " Memórias da Linha de Cascais" (1943), por duas vezes sita: " o rio de lavadeiras" em vez de lhe chamar somente a ribeira do JAMOR.  

 

Ao lado deste rio nunca deixou de estar a povoação de Linda - a - Pastora, que ninguém terá descrito tão bem como Almeida Garrett no seu livro "Romanceiro" III;

 

" Já me eram familiares aqueles sítios; mas posso dizer que não os conheci bem e como eles são deveras, senão quando, haverá hoje três anos, ali fui um dia primeiro de Maio.

Fui, como de maravilha em maravilha, por todos os pontos que tenho nomeado; mas chegando à ribeira do JAMOR, parei extasiado no meio de sua ponte, porque a várzea que daí se estende, recurvando-se pela direita para Carnaxide, e os montes que a abrigam em redor, estava tudo de uma beleza que verdadeiramente fascinava. O trigo verde e viçoso ondeava com a viração desde as veigas que rega o JAMOR, até aos altos onde velejam centenares de moinhos. Árvores grandes e belas, como rara vez se encontram nesta província dendoclasta, rodeavam melancolicamente, no mais fundo do vale, a velha mansão do Rodízio. E lá, em perspectiva, no fundo do quadro, uma aldeia Suíça com suas casinhas brancas, suas ruas em socalcos, seu presbitério ornado de um ramalhete de faias; grandes massas de basalto negro pelo meio de tudo isto, parreirais, jardinzitos quase PÊNCIS, e uma graça, uma simplicidade alpina, um sabor de campo, um cheiro de montanha, como é difícil de encontrar tão perto de uma grande capital.

O lugarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda - a - Pastora Porquê? Não sei. Têm - me jurado antiquários de «meia tigela» que o seu nome verdadeiro é NINHA- a - Pastora. Mas enquanto não achar algum de «tigela inteira» que me saiba dar razão por que se havia de chamar assim, meio em português meio em castelhano, um ALDEOTE de ao pé de Lisboa hei - de chamar-lhe eu, como os seus habitantes e toda a gente diz: Linda - a - Pastora.

 

Será desses nomes lendários, que a seguir falaremos também de bonitas lendas dum passado, que começa a ficar deveras longe: